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Fé ou Amor ?

10/08/2009

 

Por Pe. Francisco Faus.

Fé e amor em debate

No início da década de setenta, num período em que fermentavam as crises e revoluções sociais, ideológicas e religiosas, dois intelectuais católicos franceses – o filósofo Jean Guitton e o jornalista converso André Frossard – mantiveram um diálogo aberto sobre problemas de atualidade, ao longo de vários programas radiofônicos. O diálogo era aberto porque, como hoje é tão comum na televisão, os ouvintes participavam, manifestando – no caso, por escrito – as suas opiniões.

Num dos programas, Guitton começou dizendo: “Em uma das nossas conversas anteriores, abordávamos o problema da fé, e já recebi muitas cartas a esse respeito. Um dos meus correspondentes escrevia: «André Frossard e o Sr. falaram da crise da fé; mas o essencial não é um problema de fé, e sim um problema de amor. Não importa tanto saber se se tem ou não se tem fé; trata-se de saber se se ama»…”

Penso que muitos dos jovens atuais, mesmo católicos, concordariam plenamente com a opinião desse rapaz. Não hesitariam em afirmar que o que nos faz bons e autênticos é, acima de tudo, amar, independentemente de crermos ou não, de termos esta ou aquela fé. Tanto faz a religião que cada qual tem – diriam –, o importante é amar, é ter amor e dar amor.

Para quem leia o Evangelho, não há dúvida de que Cristo dá a primazia absoluta ao amor: O primeiro de todos os mandamentos – ensina Jesus – é este: amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças. Eis o segundo: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Outro mandamento maior do que estes, não existe (Mc 12, 29-31).

Então, como se explica que Frossard, bom conhecedor do Evangelho, comentasse a seguir naquele programa? “No Evangelho, o que Deus mais admira, o que provoca a admiração de Cristo, é, sobretudo, precisamente a fé. Chega a dizer, com uma espécie de espanto [ao ver a fé do centurião romano que pede a cura do seu servo]: «Nunca tinha visto tamanha fé em Israel». Essa fé faz parte das virtudes teologais e não pode ser separada do amor”.

Na mesma linha, Guitton reforçou: “Se tivesse que escolher entre a fé e o amor, creio que daria preferência à fé. Partindo da fé, estou persuadido de que encontraria o amor, sem as falsas ilusões nem os equívocos que costumam acompanhá-lo”. E acrescentou ainda: “Entre a fé e o amor há uma corrente de força e de luz, que faz com que o verdadeiro amor leve à fé, e a verdadeira fé leve ao amor”(Revista Palabra, Madrid, maio de 1971, pág. 9.).

Esses comentários não são nenhuma tolice. Pelo contrário, apontam para questões decisivas, muito delicadas, em que é fácil derrapar sem perceber, com conseqüências desastrosas; questões de que depende precisamente a autenticidade da bondade e da fé. Por isso, interessa-nos refletir com um pouco de calma a esse respeito.

A fé abre a porta ao amor

Tanto Guitton como Frossard partem da base de que a fé precede o amor, mais concretamente, de que a fé é uma condição para podermos amar com um amor autêntico.

Para entender exatamente o que querem dizer, é preciso ter presente que se trata de dois católicos inteligentes e cultos. Portanto, a noção de fé que eles possuem não é um conceito infantil, vago ou confuso. Pelo contrário, têm a noção clara e precisa que deveria ter todo e qualquer católico que conheça ao menos o catecismo da primeira comunhão, a mesma noção que nos expõe o Catecismo da Igreja Católica: “A fé é primeiramente uma adesão pessoal do homem a Deus; é ao mesmo tempo, e inseparavelmente, o assentimento livre a toda a verdade que Deus revelou” (n. 150).

Por outras palavras: ter fé é, antes de mais nada, crer em Deus: crer que Deus existe, que é Alguém que pode ser encontrado, conhecido e amado, e aderir pessoalmente a Ele; e depois disso, ter fé é aceitar, assentir às verdades que Deus revelou – que nos manifestou claramente – sobre Si mesmo, sobre o sentido da vida humana, sobre os valores da existência, sobre a nossa missão na terra, sobre o bem e o mal, sobre a verdadeira religião, etc.

Sabendo que a fé é isso, uma pessoa de boa vontade chega facilmente a duas conclusões:

* Primeira: como bem sabemos, só podemos amar a quem conhecemos. Ninguém ama de verdade um desconhecido – um nome lido por acaso na lista telefônica –, nem uma figura puramente imaginária. Em contrapartida, podemos amar e admirar de verdade uma pessoa das nossas relações, que conhecemos bem; e também uma pessoa que nunca vimos, mas que conhecemos a fundo, como se a tivéssemos visto, por referências, leituras e outras informações objetivas. Aplicando este raciocínio ao amor de Deus, está claro que só podemos amar a Deus de verdade se o conhecemos bem. E um cristão sabe que só o conhecemos bem se sabemos o que Ele nos manifestou acerca de si mesmo por meio de Jesus Cristo: Ninguém jamais viu a Deus. O Filho único [Jesus], que está no seio do Pai, foi quem o revelou (Jo 1, 18).

* Segunda: Deus revelou-nos – sobretudo pelos ensinamentos de Cristo – o verdadeiro bem e o verdadeiro mal, os valores certos da vida, os caminhos da bem-aventurança, da felicidade terrena e eterna, ou seja, da autêntica realização humana, individual e social. Ora, ninguém pode negar que é impossível amar o próximo de verdade se não sabemos o que é bom para ele, pois amar é querer bem, querer o bem da pessoa amada. Mas como poderemos proporcionar aos outros o verdadeiro bem se o ignoramos?

Tudo isto evidencia que primeiro deve vir o conhecimento – que nos é dado sobretudo pela fé em Jesus Cristo –, e só depois pode vir o amor. Neste sentido, os dois intelectuais franceses tinham razão.

Por não perceber isso é que muitas pessoas de muito boa vontade e muito pouca doutrina tropeçam e se afundam. Querem uma religião “autêntica”, sem as “firulas” – assim falam às vezes – das doutrinas, dos dogmas, dos ensinamentos da Igreja; querem uma fé “sincera”, de coração, com “pouca teoria e muito amor”. Na realidade, padecem de um vácuo de fé, de uma ignorância leviana, que os leva a amar mal – e a causar até um grande mal aos outros – ou a não amar em absoluto. É desse modo que se forja a triste inautenticidade de tantos “autênticos”.

Fé e “fés”

Talvez os esclarecimentos anteriores se destaquem mais se os colocarmos contra o pano de fundo das “fés que não são a fé”; por assim dizer, das fés falsas, que parecem ouro, mas são barro.

Vejamos um bom elenco dessas “fés” inautênticas, em confronto com a fé verdadeira, feito por um escritor cristão, Michel Quoist:

“A fé não é:

* uma impressão ou um sentimento;

* uma certa forma de otimismo em face da vida;

* a satisfação de uma necessidade de segurança.

“Também não é:

* uma opinião;

* uma simples regra de bom comportamento moral;

* uma convicção baseada apenas no raciocínio;

* uma evidência científica;

* um hábito social, fruto da educação.

“A fé é, em primeiro lugar, uma graça (recebida em germe no batismo), quer dizer, um dom de Deus. Essa graça ajuda-nos a reencontrar uma pessoa viva, Jesus Cristo; permite-nos
adquirir a certeza de que Ele fala a Verdade, de que o seu testemunho – palavra e vida – é exato. Com a força dessa certeza, a fé consiste então em esposar o seu olhar, a sua visão de nós mesmos, dos outros, das coisas, da humanidade, da história, do universo, do próprio Deus, e comprometer-se em função desse olhar” (Michel Quoist, Réussir, Les Éditions Ouvrières, Paris, 1961, pág. 201).

Comentemos, por enquanto, só a primeira parte desse texto. O autor começa dizendo o que a fé “não é”. Não custa muito perceber que isso – o que a fé “não é” – coincide exatamente com o que grande quantidade de jovens e menos jovens acham que “é” a fé, pelo menos a “fé” deles.

Para bastantes deles, com efeito, a fé não passa de um sentimento; ou então é uma simples opinião pessoal, uma crença que cada qual escolhe, não se sabe bem como, ou, melhor, sabe-se, sim: de acordo com os seus interesses.

A pseudofé dessas pessoas parece-se muito com o mitológico leito de Procusto, o estalajadeiro grego que tinha na hospedaria uma cama-padrão. Se o hóspede era mais comprido do que o leito, serrava-lhe o que sobrava das pernas e deixava-o esvaindo-se em sangue; se era baixinho, esticava-o pela cabeça e pelos pés até torná-lo do tamanho do leito, mesmo que com isso acabasse com a vida do coitado. O importante era “adaptar” todo o mundo ao formato do leito.

Da mesma forma, bastantes, que se julgam autênticos, só aceitam as verdades religiosas e morais se se “adaptam” – mesmo que seja deturpando-as, reta-lhando-as, arrancando-lhes pedaços vitais – ao formato do leito do seu comodismo, da sua sensualidade, da sua ambição, da sua cupidez…, quer dizer, ao formato dos seus sete pecados capitais, que eles não estão dispostos a combater.

Por isso, se há, por exemplo, um preceito da Igreja que, concretizando o terceiro mandamento da Lei de Deus, manda ir à Missa aos domingos e dias santos, eles acharão “careta” levá-lo a sério. Tal preceito só seria autêntico se se adaptasse ao leito de Procusto da sua moleza, dos seus planos de fim de semana, dos seus gostos e do seu prazer. Não se adapta? Corta!

Se, para pôr outro exemplo, o sexto e o nono mandamentos da Lei de Deus ordenam que se respeitem amorosamente os planos divinos nas coisas relativas ao sexo – à faculdade de transmitir a vida humana –, eles vão rir-se desse “plano divino” – dentro do qual justamente se ilumina o valor da castidade e da fidelidade – e dirão que o sexo é para gozar (como a cerveja, o sorvete, a coca-cola, a praia e as drogas) e que o resto são histórias.

Em conseqüência dessa mentalidade, o “deus” deles – tal como a religião deles – é um falso “deus” plástico, ajeitado, domesticado, moldado pelos dedos do egoísmo, da condescendência, da vida fácil, do consumismo, do prazer, do descompromisso…; em suma, um “deus” falsificado que se adapta ao leito de Procusto da sua falsíssima autenticidade. Não é, absolutamente, o Deus vivo e verdadeiro (1 Tess 1, 9). É somente um ídolo, obra das suas mãos (Salmo 135, 15).

Uma graça e uma boa disposição

O autor acima citado, além de dizer aquilo que a fé não é, comenta também o que é. Digo que “comenta”, porque usa palavras simples, conversacionais, sem pretender formular uma definição teológica. Começa essa parte – como víamos – com uma afirmação categórica: “A fé é, em primeiro lugar, uma graça, quer dizer, um dom de Deus”.

É coisa que muitos esquecem e, por isso, são poucos os que rezam, pedindo a Deus a fé, ou o aumento da fé, que tanta falta lhes faz; e também são poucos os que procuram ter a alma preparada para recebê-la, purificando-a dos obstáculos que bloqueiam a recepção da fé.

O principal desses obstáculos é a má disposição do coração, mais ou menos consciente. Geralmente, é a má vontade que nos leva a não querer ouvir falar de Deus, a manter uma voluntária indiferença, a não querer “saber” das coisas de Deus, para não termos que incomodar-nos, corrigir-nos, comprometer-nos e mudar.

Mas, quer queiramos ouvi-lo quer não, Deus fala-nos, e fala claro. Abramos a Bíblia, mesmo que seja ao acaso. Logo perceberemos que Deus nos procura sem cessar; que se dirige de mil modos a cada um de nós; que se “abre” conosco, oferecendo-nos o seu amor; que nos quer salvar, enviando-nos e entregando-nos, para isso, o seu Filho, Jesus Cristo. Como diz o autor da Carta aos Hebreus: Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas; ultimamente falou-nos pelo seu Filho (Hebr 1, 1-2).

Falou-nos pelo Filho. Jesus Cristo, desde o seu nascimento em Belém, “fala”, não cessa de falar. Fala com o seu exemplo, fala com a sua palavra, fala, por meio do Espírito Santo, dentro do nosso coração. Ele é a verdadeira Luz que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem (Jo 1, 9). É a luz que resplandece nas trevas, apesar de que, muitas vezes, as trevas não o recebam (cf. Jo 1, 5).

Mas, como Ele próprio dizia – e já Isaías profetizara antes –, há muitos que, diante dEle e das suas palavras, vendo não vêem, e ouvindo não ouvem (cf. Lc 8, 10). Por quê? Porque o seu coração se endureceu: taparam os seus ouvidos, e fecharam os seus olhos, para que os seus olhos não vejam, e os seus ouvidos não ouçam, nem o seu coração compreenda; para que não se convertam e eu os sare (Mt 13, 15). E, se nos perguntarmos ainda por que fizeram isso, Jesus dir-nos-á mais: Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas aquele que pratica a verdade [nós diríamos, o “homem autêntico e sincero”] vem para a luz (Jo 3, 20-21).

Só quem é sincero, reto e bom (Lc 8, 15), é capaz de abrir os olhos e o coração a Deus.

Mas, e quando já existe essa boa disposição? Isso vale muito, mas não basta. Temos que compreender que as verdades que Deus nos revelou são de uma grandeza tão indizível, de uma claridade tão intensa e deslumbrante, que os olhos da mente – as forças da razão humana – não são capazes de captá-las plenamente, de abrangê-las até ao fim. É uma coisa análoga à que acontece com a luz do sol: certamente um cego não a pode ver, porque carece de toda a capacidade visual; mas também não consegue vê-la quem tem boa vista, se encara o sol diretamente, devido ao excesso de luminosidade; não é que lhe falte capacidade visual; é que essa capacidade é limitada, e não suporta uma luz tão forte.

Há verdades referentes a Deus que não excedem a capacidade visual da nossa razão (por exemplo, chegar à conclusão de que Deus existe, é criador, é bom, etc.). Mas há outras muitas que a ultrapassam (como o conhecimento dos desígnios e planos de Deus sobre a Redenção do mundo, a vida íntima da Santíssima Trindade, o mistério de Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro, etc.). Para podermos “ver” essas realidades, precisamos de outra “visão” mais poderosa. Pois bem, essa nova potência visual é justamente a que a graça da fé comunica à alma; é como se Deus nos emprestasse os seus próprios olhos.

“Poderia talvez comparar-se a alma cristã – escreve Boylan – a um piloto que voa às cegas, que segue o rumo e as ordens pelo rádio. Tem de estar equipado com um aparelho receptor devidamente sintonizado [...]. A alma cristã está em situação semelhante. Precisa de um equipamento sobrenatural para receber e acatar a direção de Deus com certeza e confiança” (E. Boylan, Amor sublime, União Gráfica, Lisboa, 1955, págs. 84-85).

Se procurarmos “ver a Deus
, com coração puro e vontade sincera (cf. Mt 5, 8), Cristo tocará os olhos da nossa alma, como tocou os do cego Bartimeu; conceder-nos-á a graça da fé e nos dirá: “Vê!”… No mesmo instante, ele recuperou a vista e foi seguindo Jesus pelo caminho (Mc 10, 52).

(Trecho do livro de F. Faus: Autenticidade & Cia)

Fonte: padrefaus.org

“Grito o meu amor à liberdade pessoal”

08/08/2009

Liberdade de consciência: não! Quantos males trouxe aos povos e às pessoas este erro lamentável, que permite agir contra os ditames íntimos da própria consciência! Liberdade "das consciências", sim: que significa o dever de seguir esse imperativo interior… Ah, mas depois de se ter recebido uma séria formação! (Sulco, 389)

Quando, ao longo dos meus anos de sacerdócio, não direi que prego, mas grito o meu amor à liberdade pessoal, noto em alguns um gesto de desconfiança, como se suspeitassem que a defesa da liberdade traz no seu bojo um perigo para a fé. Tranqüilizem-se esses pusilânimes. Só atenta contra a fé uma interpretação errônea da liberdade, uma liberdade sem qualquer fim, sem norma objetiva, sem lei, sem responsabilidade. Numa palavra: a libertinagem. Desgraçadamente, é isso o que alguns propugnam. Essa reivindicação, sim, constitui um atentado contra a fé.

Por isso não é correto falar de liberdade de consciência, que equivale a considerar como de boa categoria moral a atitude do homem que rejeita a Deus. Recordamos atrás que podemos opor-nos aos desígnios salvíficos do Senhor; podemos, mas não devemos fazê-lo. E se alguém assumisse essa posição deliberadamente, pecaria, porque estaria transgredindo o primeiro e o mais fundamental dos mandamentos: Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração (Dt, VI, 5).

Eu defendo com todas as minhas forças a liberdade das consciências (Leão XIII, Enc.Libertas praestantissimum, 20-VI-l888, ASS 20 (1888), 606), que denota não ser lícito a ninguém impedir que a criatura preste culto a Deus. É preciso respeitar as legítimas ânsias de verdade; o homem tem obrigação grave de procurar o Senhor, de conhecê-lo e adorá-lo, mas ninguém na terra deve permitir-se impor ao próximo a prática de uma fé que este não possui; assim como ninguém pode arrogar-se o direito de maltratar quem a recebeu de Deus.

A nossa Santa Mãe a Igreja pronunciou-se sempre pela liberdade e rejeitou todos os fatalismos, antigos e menos antigos. Esclareceu que cada alma é dona do seu destino, para bem ou para mal: E os que não se afastaram do bem irão para a vida eterna; os que praticaram o mal, para o fogo eterno. (Amigos de Deus, 32-33)

Fonte: Opus Dei.

O Amor nos tempos da Gripe A…

07/08/2009

 

Meu filho teve as férias prorrogadas novamente, até 17/08… meu obstetra me licenciou por 14 dias, não posso sair à rua a não ser se for realmente inevitável, mesmo assim, ele me mandou usar máscara.

Minha princesinha só tem 28 semanas, o que quer dizer que suas chances de sobrevivência fora do útero ainda são baixas. Por conta disso, devo redobrar os cuidados para que consiga levar a gravidez o mais longe possível, para que as chances dela sejam maiores.

Como meu marido está trabalhando de casa, graças a Deus ele também pode sair o mínimo possível e evitar me contaminar. Ou seja, a família inteira está de molho… !!

Um detalhe: aquelas máscaras brancas fininhas não protegem nada, viu ? Elas são para serem usadas pelas pessoas que ESTÃO com a gripe, sendo uma barreira física para que não tussam nem espirrem em cima dos outros.

As máscaras que realmente protegem são as N95, que têm um filtro. Se forem comprar, comprem a máscara certa !

Uma coisa tem de bom em ficar de molho… passar mais tempo com as minhas pessoas preferidas no mundo !!

Liberdade II: Há liberdade sem verdade?

29/07/2009

 

Liberdade e verdade

No texto «Liberdade-I», lembrávamos uma realidade evidente: se o nosso raciocínio, se o nosso modo de pensar na vida e nas coisas da vida, nas escolhas pessoais e nas decisões, é confuso ou errado, como poderemos escolher “bem”?

E muito importante perceber que a falta de lucidez do pensamento é uma doença mortal da liberdade. Pensar mal leva a escolher mal. Mas são poucos os que reconhecem que “não pensam bem”. Acham que se “eles” pensam, que se “isso” é o que “eles pensam”, então está bom! Será? Vamos fazer uma reflexão muito simples.

Podem servir-nos, como referencial, algumas experiências do cotidiano. Um conhecido, por exemplo, conta-nos que resolveu ir com o filho de São Paulo ao Rio de Janeiro: uma viagem-prêmio que o pai prometera (pai sentimental, que premia a mera obrigação) se o filho passasse de ano. Aí temos os dois, mais a mãe e uma irmã, no carro, com o bagageiro atulhado. O rapaz premiado assume o volante. Está ansioso por chegar ao Rio. – “Você conhece a saída de São Paulo para a Via Dutra?”, pergunta-lhe o pai. O moço sorri com ar de suficiência. Nem se digna responder. Claro que sabe! E, ei-lo rodando por um emaranhado de ruas, de mãos e contramãos, de viadutos e elevados. Vai com uma segurança magnífica. Pega atalhos de homem esperto. Até que, duas horas depois, todos percebem que estão indo exatamente em sentido contrário, rumo ao Mato Grosso, na direção Oeste…

Outra experiência, que dispensa comentários, é a dos fracassos e decepções no casamento, que nos cercam, infelizmente, em quantidade quase incontável. Em muitos desses casos lamentáveis, o que houve – além de sérias falhas morais – foi um engano. A pessoa – apesar das observações objetivas de amigos, de colegas, de familiares – empenhou-se em casar-se com fulano ou sicrana. Achava que os outros não a entendiam. Só ela sabia. Até que, passados poucos meses, ou um ano, ou dois, teve que dizer, com a cara coberta de vergonha: “Eu me enganei”, “Eu não sabia”… Agiu com total independência, com absolua “liberdade”, mas sem nenhum conhecimento profundo, sem a base da razão esclarecida, que é imprescindível para se viver a verdadeira liberdade.

A verdade, sangue arterial da liberdade

O Papa João Paulo II não se cansou de insistir em que «o conhecimento da verdade é condição para uma autêntica liberdade» (ver Encíclica Veritatis Splendor, n. 87). Com essas breves palavras, estava dizendo algo de essencial. É óbvio que, se um engano – uma falta de conhecimento da realidade, da verdade das coisas – em assuntos como o casamento ou a profissão, pode ser funesto e até mesmo frustrar a nossa vida, mais ainda nos pode arrasar o erro a respeito dos verdadeiros bens, do verdadeiro ideal, do verdadeiro sentido da nossa vida. Oxalá não sejamos daqueles que só se dão conta de que erraram redondamente quando já estão sem retorno, na velhice ou à beira da morte: “Eu achava”, “Eu não percebi”, “Agora é tarde”…

A liberdade autêntica precisa da verdade, que lhe dá sentido, rumo e firmeza; que é como a estrela que lhe marca o rumo; que a orienta e a potencia para construir e não para destruir. É – dizia alguém – como o sangue arterial para o corpo!

Isso é o que não conseguem entender os que confundem a liberdade com o desejo e a autenticidade com a simples espontaneidade irrefletida. Perdidos num “espontaneísmo” simplório, e num conceito também superficial da liberdade -entendida como livre vazão dos gostos e desejos -, não conseguem se aprofundar, nem conseguem entender aquelas pessoas que são livres de verdade: aqueles que agem movidos por um ideal bem conhecido, por um raciocínio objetivo e sábio, fruto de séria reflexão; os que, por isso mesmo, tomam decisões inteligentes e livres, não atreladas, como a carroça ao jumento, aos estados de ânimo e às oscilações dos desejos.

São Josemaría Escrivá, que amou e defendeu a liberdade com paixão, tem, sobre este tema, umas palavras que vale a pena meditar: «O Amor de Deus marca o caminho da verdade, da justiça e do bem. Quando nos decidimos a responder ao Senhor: a minha liberdade para Ti, ficamos livres de todas as cadeias que nos haviam atado a coisas sem importância, a preocupações ridículas, a ambições mesquinhas. E a liberdade – tesouro incalculável, pérola preciosa que seria triste lançar aos animais – emprega-se inteira em aprender a fazer o bem. Esta é a liberdade gloriosa dos filhos de Deus» ( Amigos de Deus, n. 38).

[Adaptação de um trecho do livro de F. Faus, Autenticidade & Cia]

E se eu quiser ser livre para fazer tudo que quiser?

19/07/2009

Por Jason Evert

Voce quer liberdade? Que tal não ter que se preocupar mais com perguntas do tipo: "Vou pegar uma doença? Meus pais vão descobrir? Vou ficar grávida? Estou sendo usado(a)?" Livre desses problemas, você será livre para amar – sem ansiedade sobre o futuro ou arrependimentos por causa do passado. Essa é a verdadeira liberdade: a capacidade de fazer o que é certo.

Você está certo(a) em procurar a liberdade, porque ela é que torna o amor possível. Mas perceba que a castidade não é a perda da liberdade; é a sua plenitude. Uma pessoa que é controlada pelos seus homônios não é livre. Um rapaz assim não está se doando-se a uma mulher ou a amando, mas estáapenas usando-a como instrumento para suas "necessidades" sexuais. A luxúria cega o nosso coração e distorce nossos desejos, enquanto a pureza nos torna livres. Afinal de contas, não nos tornamos livres fazendo tudo que queremos. Nós ficamos livres – e capazes de amar – quando temos auto-controle. Enquanto não temos a liberdade do auto-controle, somos escravos acorrentados ao controle de natalidade.
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Trecho do livro "Pure Love", de Jason Evert. San Diego, Catholic Answers, 2007. Veja mais de Jason Evert em: www.chastity.com

Fonte: Vida e Castidade, de Daniel Pinheiro.

Caritas In Veritate: Meus Destaques (II)

09/07/2009

 

A Igreja não tem soluções técnicas para oferecer [10] e não pretende « de modo algum imiscuir-se na política dos Estados »[11]; mas tem uma missão ao serviço da verdade para cumprir, em todo o tempo e contingência, a favor de uma sociedade à medida do homem, da sua dignidade, da sua vocação. Sem verdade, cai-se numa visão empirista e céptica da vida, incapaz de se elevar acima da acção porque não está interessada em identificar os valores — às vezes nem sequer os significados — pelos quais julgá-la e orientá-la. A fidelidade ao homem exige a fidelidade à verdade, a única que é garantia de liberdade (cf. Jo 8, 32) e da possibilidade dum desenvolvimento humano integral. É por isso que a Igreja a procura, anuncia incansavelmente e reconhece em todo o lado onde a mesma se apresente. Para a Igreja, esta missão ao serviço da verdade é irrenunciável. A sua doutrina social é um momento singular deste anúncio: é serviço à verdade que liberta. Aberta à verdade, qualquer que seja o saber donde provenha, a doutrina social da Igreja acolhe-a, compõe numa unidade os fragmentos em que frequentemente a encontra, e serve-lhe de medianeira na vida sempre nova da sociedade dos homens e dos povos[12].(nº9)

Lição para os “teólogos da libertação” ! A missão da Igreja é levada a cabo pela sua doutrina social, e não se envolvendo em movimentos como o MST e afins ! Muitas Pastorais precisam ler isso… e todos os assessores da CNBB ! Padre não tem que se meter em política !

A opção preferencial da Igreja não é pelos pobres… é pela Verdade e pelo desenvolvimento humano integral.

Caritas In Veritate: Meus Destaques (I)

08/07/2009

 

Estou começando a ler a nova encíclica do Papa Bento XVI, e já estou amando. Os trechos que mais me chamarem atenção serão postados aqui, com breves comentários. Quaisquer grifos são meus.

[…]A verdade é luz que dá sentido e valor à caridade. Esta luz é simultaneamente a luz da razão e a da fé, através das quais a inteligência chega à verdade natural e sobrenatural da caridade: identifica o seu significado de doação, acolhimento e comunhão. Sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo. O amor torna-se um invólucro vazio, que se pode encher arbitrariamente. É o risco fatal do amor numa cultura sem verdade; acaba prisioneiro das emoções e opiniões contingentes dos indivíduos, uma palavra abusada e adulterada chegando a significar o oposto do que é realmente. A verdade liberta a caridade dos estrangulamentos do emotivismo, que a despoja de conteúdos relacionais e sociais, e do fideísmo, que a priva de amplitude humana e universal.[…](nº 3)

Gostaria que alguns sacerdotes, que pregam o "amor” – esse vazio, que não fala a verdade  – lessem com cuidado esse ensinamento. Chega de palavras doces e carregadas de poesia e sentimentalismo ! O povo precisa ouvir a verdade !

É Possível Perdoar Sempre aos Inimigos?

29/05/2009

Já a vida pública de Jesus ia a meio, quando numa tarde, enquanto ensinava os seus discípulos em Cafarnaúm, Pedro lhe perguntou:

«Senhor, se o meu irmão me ofender, quantas vezes lhe deverei perdoar? Até sete vezes?» (Mt 18,21)

OS TRÊS PERDÕES DOS ISRAELITAS. Os mestres judeus costumavam discutir o número de vezes que uma pessoa tinha que perdoar. E os Doutores da Lei tinham chegado à conclusão de que um homem devia perdoar ao seu irmão até três vezes. Porque, diziam, Deus nas Escrituras perdoava sempre até três vezes, e à quarta vez castigava. Com efeito, no livro do profeta Amós anuncia-se que Deus castigou vários povos pelo quarto pecado cometido.

Ali, o profeta declara:

- Por causa do triplo e do quádruplo crime de Damasco, não revogarei o meu decreto (Am 1,3).

- Por causa do triplo e do quádruplo crime de Gaza, não revogarei o meu decreto (Am 1,6).

- Por causa do triplo e do quádruplo crime de Tiro, não revogarei o meu decreto (Am 1,9).

E o mesmo vai dizendo de Edom, Amon, Moab, Judá, Israel (Am 1,11.13; 2,1. 4.6). Ou seja: “pelos três crimes de (…), e pelo quarto, não lhes perdoarei.”

Destas palavras, os israelitas deduziam que, se o perdão de Deus se limitava a três ofensas, não havia que pedir a um homem que fosse mais misericordioso que Deus. Por isso não existia a obrigação de perdoar mais de três vezes.

Pedro, ao propor a Jesus perdoar até sete vezes, o que fez foi tomar os três perdões dos israelitas, multiplicá-los por dois, e acrescentar-lhe mais um. E assim, muito contente e satisfeito, pensava ter dado um grande passo de generosidade, superando os maestros judeus em misericórdia. Esperava, pois, ouvir os parabéns de Jesus.

SETENTA VEZES SETE. Mas Jesus respondeu a Pedro de um modo inesperado e surpreendente: Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete (Mt 18,22).

A expressão setenta vezes sete não significa 490 vezes, como pode parecer se a tomarmos à letra (70×7=490). Aliás, a versão de Lucas, tomada textualmente, ainda é mais extrema:

Se o teu irmão te ofender, repreende-o; e, se ele se arrepender, perdoa-lhe. Se te ofender sete vezes ao dia e sete vezes te vier dizer: “Arrependo-me”, perdoa-lhe. (Lc 17,4)

Sete vezes ao dia equivale a 2.555 perdões ao ano!

O que Jesus quis dizer com esta frase simbólica é que devemos perdoar “sempre”, sem pôr limites. Que o perdão não deve ser uma excepção, ou um favor que fazemos a alguém, mas um modo habitual da nossa vida.

Porque usou Jesus a expressão setenta vezes sete? Pela história de Caim e Abel narrada no Génesis. Ali conta-se que Caim era tão malvado que, quando alguém lhe fazia algum mal, ele não se vingava uma vez, mas sete vezes (Gn 4,15). Este ressentimento foi-se transmitindo aos seus descendentes, de tal modo que um dos seus netos, chamado Lamec, adquiriu o hábito de se vingar, por cada ofensa que lhe faziam, setenta vezes sete (Gn 4,17-24). E foi essa violência crescente que provocou a ruína da sociedade daquele tempo, com o dilúvio universal.

Recordando esta velha história, Jesus quis ensinar que, às ânsias de vingança, os cristãos devemos opor o perdão fraterno. Somente com o perdão é possível salvar do desastre a nova sociedade dos cristãos. E para fazer sobressair esta contraposição, utilizou a mesma expressão da história de Caim.

PERDOAR NÃO É FAVORECER. Por várias vezes, Jesus ensinou aos seus discípulos que deviam perdoar. E para que não esquecessem esta obrigação, deixou-a imortalizada no Pai-nosso, quando ensinou a pedir a Deus:

Perdoa os nossos pecados, pois também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende. (Lc 11,4)

Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai celeste vos perdoará a vós. Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai vos não perdoará as vossas (Mt 6,14-15).

Contudo, e apesar da ênfase que Jesus pôs neste mandato, poucas coisas há que tanto custem aos cristãos, como perdoar. E isso deve-se a terem uma ideia equivocada sobre o perdão.

O primeiro erro consiste em pensar que, quando alguém perdoa, faz um favor ao seu inimigo. Na verdade, quando perdoamos, fazemos um favor a nós mesmos. A própria experiência ensina-nos que, quando guardamos rancor contra alguém, ou temos um ressentimento para com outra pessoa, somos nós os únicos prejudicados, os únicos que sofremos, os únicos lastimados; e fazemos mal a nós próprios, passando noites sem dormir, mastigando ódios, envenenando a nossa mente e atormentando-nos com ideias de vinganças. E entretanto, o nosso inimigo está em paz e não se dá conta de nada.

A medicina moderna reconhece, cada vez mais, que os sentimentos negativos ou de ódio para com outra pessoa produzem doenças físicas e psíquicas, provocam enfartes, disfunções coronárias, afecções cardíacas, problemas nos ossos, na pele e no sistema imunológico. Até muitas das nossas doenças – explica a ciência médica – são no fundo produto dos nossos rancores ocultos. Sem dúvida, o nosso inimigo estaria feliz se soubesse o prejuízo que a sua lembrança provoca em nós.

É, pois, um erro julgar que quem perdoa perde. Na verdade, quem perdoa ganha. Porque perdoar é arrancar de si mesmo um espinho doloroso e infectado, capaz de envenenar uma vida inteira.

O ódio causa maior prejuízo a quem o tem, do que a quem o recebe. E aquele que se recusa a perdoar sofre muito mais do que aquele a quem é negado o perdão. Porque, quando alguém odeia o seu inimigo, passa a depender dele. Embora não queira, ata-se a ele. Fica sujeito à tortura da sua lembrança, e ao suplício da sua presença. Dá-lhe poder para perturbar o seu sonho, a sua digestão, toda a sua saúde, e converter toda a sua vida num inferno. Pelo contrário, quando consegue perdoar, rompe os laços que o atavam a ele, liberta-se e deixa de sofrer.

Por isso, quando Jesus pediu que perdoemos aos outros, não o disse pensando nos outros. Disse-o pensando em nós. Porque do projecto de Jesus faz parte que os seus seguidores sejam pessoas sadias e possam viver a vida em cheio. Foi Ele próprio quem o afirmou:

Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância. (Jo 10, 10)

PERDOAR NÃO É JUSTIFICAR. A segunda ideia errada que os cristãos têm acerca do perdão, é que perdoar significa justificar. Que se alguém perdoa, de algum modo é porque “compreende” a atitude do outro, a minimiza. Que perdoar é, no fundo, um modo de dizer “aqui não aconteceu nada”.

E não é assim. Às vezes, aquilo que aconteceu é muito e muito sério. Mas se, apesar disso, alguém perdoa, não é porque fecha os olhos perante a evidência dos factos, nem porque é indiferente ao mal que lhe foi feito. Quando apresentaram a Jesus uma mulher surpreendida em flagrante adultério, Jesus perdoou-lhe e não a condenou. Mas não justificou o seu mau comportamento, nem lhe disse que o que tinha feito era bom. Pelo contrário, ao mandá-la embora aconselhou-a: Vai e de agora em diante não tornes a pecar (Jo 8,3-11). Com isso, o Senhor reconheceu a gravidade do pecado cometido pela mulher.

Quando alguém perdoa, pois, reconhece que o outro procedeu mal, que cometeu algo mais ou menos grave; mas, mesmo assim, e apesar de tudo, decide perdoar-lhe para preservar a sua própria saúde e o seu bem-estar interior.

Deste modo, perdoar não é “desculpar”. Não é libertar o outro da culpa. Não. Mesmo quando o outro é culpado de uma acção má, devo procurar perdoar-lhe, porque desse modo estou-me libertando de um sentimento de frustração e tristeza que me pode intoxicar. Perdoar sempre as ofensas, os agravos e os insultos não é minimizar a diferença entre o bem e o mal, nem tornar-se cúmplice do injusto, mas assumir uma higiénica atitude de vida, que produz, a longo prazo, efeitos benéficos e saudáveis.

PERDOAR NÃO É ESQUECER. A terceira ideia errada que os cristãos têm acerca do perdão, é julgar que perdoar implica esquecer. No artigo da revista anterior, já dissemos que não é assim.

Jesus nunca pediu aos cristãos que esquecessem as ofensas recebidas. E isto por uma razão muito simples: porque, esquecer alguma coisa ou não, depende da memória que cada um tiver. E a memória é uma faculdade que não depende da nossa vontade. Como dissemos no artigo do último número, a própria experiência mostra-nos que, muitas vezes, queremos recordar alguma coisa e não conseguimos; e outras vezes desejaríamos esquecer certas coisas, e não somos capazes.

Por isso, se alguém tem boa memória, ainda que não queira, recordará durante muito tempo as coisas que lhe aconteceram. Especialmente se foram desagradáveis, pois a lembrança de um facto depende da sua carga afectiva; e os acontecimentos desagradáveis têm uma grande carga de emotividade, pelo que se gravam muito mais na lembrança.

Não é possível, por isso, impor à vontade que se esqueça. Seria certamente muito mais fácil perdoar havendo esquecimento (como seria muito mais fácil a bondade humana se não houvesse tentações). Mas o facto de alguém não esquecer, não significa que não perdoe. Porque pode recordar espontaneamente as lembranças mais dolorosas e prejudiciais, e não sofrer o desgaste interior próprio de quem guarda um doloroso rancor.

PERDOAR NÃO É RESTABELECER. A quarta ideia errada que os cristãos têm acerca do perdão, é que perdoar significa necessariamente voltar a pôr as coisas como estavam antes da ofensa. Que se alguém perdoou a um amigo, deve devolver-lhe a amizade; que se alguém perdoou a um empregado infiel, deve devolver-lhe a confiança; que se alguém perdoou a uma pessoa com quem convivia, deve aceitá-la novamente ao seu convívio; que se alguém perdoou a um ente querido, deve voltar a sentir carinho por ele.

Mas as coisas não são assim. Nem sempre se pode devolver toda a confiança a quem nos defraudou, mesmo quando lho perdoamos. Nem sempre se pode voltar a sentir apreço ou estima por quem nos ofendeu, nem reatar a amizade com quem nos ofendeu. Mais ainda: às vezes é imprudente voltar a ter confiança em quem nos enganou uma vez. Contudo, posso perdoar-lhe.

O perdão, pois, não implica repor sentimentos nem afectos; Jesus nunca mandou isso. O perdão também não me impede de reclamar a restituição dos direitos violados pelo ofensor, ou a reparação da injustiça por ele cometida, ou o respectivo castigo que ele merece, contanto que eu não procure com isso a vingança pessoal, mas a justiça.

PERDOAR NÃO É ACEITAR DESCULPAS. A quinta e última ideia errada acerca do perdão consiste em crer que, para perdoar a alguém, tenho que esperar que ele se arrependa e me peça perdão.

Mas não é assim. Se assim fosse, a nossa possibilidade de perdoar (e por conseguinte, de nos curarmos interiormente) estaria condicionada pelo nosso inimigo. Dependeria de ele querer dar-nos oportunidade para lhe perdoarmos, vindo pedir-nos perdão; e no caso de não o fazer, o nosso perdão ver-se-ia frustrado.

Mas o perdão, segundo Jesus, não está condicionado a nada. Por isso, quando Pedro lhe perguntou Senhor, se o meu irmão me ofender, quantas vezes lhe deverei perdoar? não acrescentou “sempre e quando ele me pedir perdão”, nem “sempre e quando ele se mostrar arrependido”. Perdoa-se, e pronto.

Mas, porventura para que Deus nos perdoe não é preciso estarmos arrependidos do que fizemos? Não ensina isso a parábola do filho pródigo? Sim, mas porque é diferente o perdão que Deus dá e o perdão que é dado pelas pessoas. Quando Deus perdoa, não o faz para se curar a Ele, mas para nos curar a nós do pecado e nos devolver a sua amizade; por isso precisamos de estar arrependidos e de lhe pedir desculpas. Mas, quando o homem perdoa, fá-lo para se curar a si mesmo e se livrar das sequelas que nele deixou a violência experimentada. E para isso não é preciso que o outro se arrependa. Basta que alguém queira perdoar.

ENTÃO, O QUE É PERDOAR? Se perdoar não é favorecer o inimigo, nem justificar o seu comportamento, nem esquecer o seu agravo, nem restabelecer a sua amizade, nem esperar pelas suas desculpas, então, em que consiste o perdão?

Antes de mais, o perdão é uma decisão. Cada qual pode tomá-la ou não, segundo o seu parecer. É algo independente do sentimento; pode-se perdoar mesmo quando não se “sinta”. É algo independente, mesmo do que o outro fizer; mesmo quando o ofensor não peça desculpas, nem se arrependa do que fez, pode-se igualmente perdoar. O perdão, pois, não está subordinado a nada, nem depende de que o outro cumpra certos requisitos. Alguém perdoa, simplesmente, porque quer fazê-lo.

Depois, é uma decisão pessoal. Para isso, não preciso de falar com quem me ofendeu. Pois pode acontecer que este não queira escutar-me, ou se encontre longe, ou já que tenha falecido; e então, o meu perdão ver-se-ia frustrado. O perdão é algo que cada um realiza no seu interior, mediante um diálogo com Deus. O evangelho de Marcos conta que Jesus, certo dia, falando da oração, disse: Quando vos levantais para orar, se tiverdes alguma coisa contra alguém, perdoai-lhe primeiro (Mc 11,24b). Ou seja, quem no momento de orar na sinagoga alguém se lembrasse de que tinha um ressentimento com alguém, ali mesmo diante de Deus podia perdoar ao agressor e libertar-se do ódio que conservava.

O perdão é concedido silenciosamente no coração, mediante uma prece que alguém faz (as vezes que for necessário), perdoando ao ofensor.

E como pode alguém saber que já perdoou? Seguindo certos conselhos do Novo Testamento, podemos descobrir algumas pistas. Estes podem ser três sinais de que alguém já perdoou:

:: Quando já não deseja o mal ao outro:

Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, abençoai os que vos amaldiçoam. (Lc 6,27-28)

:: Quando desistiu da vingança:

Não pagueis a ninguém o mal com o mal, […] não vos vingueis… (Rm 12,17.19)

:: Quando é capaz de ajudar o ofensor, se o vir em necessidade:

Se o teu inimigo tem fome, dá-lhe de comer; se tem sede, dá-lhe de beber; porque, se fizeres isso, amontoarás carvões em brasa sobre a sua cabeça. (Rm 12,20)

PERDOAR PARA CURAR. Em certa ocasião, um jovem de uma aldeia teve que viajar até à capital. Enquanto ia em grupo, e sem ele se dar conta, alguém tirou-lhe o mais valioso que tinha: um relógio que seu pai lhe havia oferecido com muito sacrifício antes de morrer. Quando se deu conta, o seu coração encheu-se de uma grande amargura e sentiu um profundo ódio pelo desconhecido que lhe tinha tirado o seu valioso tesouro.

A partir desse momento, os seus pensamentos centraram-se no anónimo ladrão. Pensava nele dia e noite, odiava-o com todo o seu coração, e o seu rancor crescia cada vez que tinha de ver a hora no outro relógio mais pequeno que agora usava. Havia noites em que não dormia de raiva e impotência. Tornou-se irritadiço e iracundo com a sua própria família. Até que um dia, angustiado por tanto ressentimento, fez esta oração:

Senhor, já não posso continuar assim. Por isso quero perdoar a esse ladrão que levou o meu relógio. Mais ainda: quero oferecer-lhe o meu relógio. De tal modo que, quando esse ladrão morrer, Tu não o julgues por este roubo, porque não houve roubo nenhum. Eu já lhe ofereci o meu relógio.

A partir desse dia, o jovem foi feliz. Recuperou a alegria que durante meses tinha perdido, porque não voltou a trazer à sua memória aquele facto torturante. E desde então pôde viver em paz.

Perdoar é soltar da mão uma brasa acesa, em que pegamos estupidamente nalgum momento da vida, e que nos queima e nos tira a vontade de viver. Pelo contrário, a falta de perdão é capaz de nos deixar doentes, envenenar-nos, e tornar-nos maus.

Por isso é muito acertado o conselho de Santo Agostinho:

«Se um homem mau te ofende, perdoa-lhe, para que não haja dois homens maus.»

Ariel Álvarez Valdés,

Sacerdote argentino, biblista

Fonte: Capuchinhos.Org

Deus Miguxo ?!

23/05/2009
MeU dEuxXx…OBRigadU pOr tudu…pRotEgi mInhah FAmIliAH…mEUxXx mIGUxXxuxXx…pErdOAH mEuxXx pecaDuxXx…Me LIvrAh DU MaU !!!!! AMEM !!!!!

Alguns cristãos católicos têm, ao arrepio da doutrina, adotado uma visão de Deus errônea, um Deus Miguxo. Prega-se um Deus açucarado, que tudo dá, tudo aceita, tudo perdoa, sem pedir verdadeira conversão, verdadeira mudança de vida, sem pedir nada. Onde estaria aí a justiça de Deus ? A sua Misericórdia não anula a sua justiça !

 

Criou-se um novo credo, do Deus Todo-Amoroso, esquecendo-se de que Deus é Todo-Poderoso e Justo. O Deus do Novo testamento NÃO contradiz o do Antigo.

 

Alguns chegam a aderir e a propagar a chamada “Teoria do Inferno Vazio” de Urs Von Balthazar. Essa teoria é herética e deve ser rejeitada pelos católicos, pois contraria o dogma da reprovação, pelo qual Deus conhece de antemão (presciência) os pecados que alguns irão cometer, e os permite, mesmo sabendo que serão condenados,  por respeito ao livre-arbítrio.

 

Jesus, em Mateus 25,46, aponta que os ímpios irão para o inferno.

O Inferno, portanto, existe, e é possível, sim, ser condenado às penas eternas do Inferno.  São Paulo, por exemplo, apóstolo admirado por sua grande fé, e que, em tese, poderia até estar seguro de sua salvação, era cauteloso o suficiente para temer a sua reprovação eterna:

 

“Trato duramente o meu corpo e reduzo-o à servidão, a fim de que não aconteça que, tendo proclamado a mensagem aos outros, venha eu mesmo a ser reprovado” (1Coríntios 9,27).

Diz o Catecismo da Igreja Católica:

 

“O ensinamento da Igreja afirma a existência e a eternidade do inferno. As almas dos que morrem em estado de pecado mortal descem imediatamente depois da morte aos infernos, onde sofre as penas do inferno, ‘o fogo eterno’” (CIC, § 1034)

 

Reproduzo aqui, por concordar integralmente, as palavras do meu amigo Rafael Cresci, na comunidade Católicos (no Orkut): A infinita misericórdia de Deus é infinita, mas também Deus sendo a mais pura Verdade, não pode se contradizer e prometer e estabelecer uma coisa e fazer outra. Ao menos, não o Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó, de Israel, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Mesmo adorado pela Igreja Católica.

 

O Deus que eu adoro é Amor, Misericordioso, mas ao mesmo tempo Justo e Todo-Poderoso. Ele nos pede conversão, renascimento, verdadeira mudança. Como posso me dizer Seu filho se não guardo os seus mandamentos,  não correspondo ao Seu amor, mudando de conduta? Como posso chamar-lhe Pai, se não me comporto como filho? Quem tem filhos sabe que para educar e corrigir não se pode ser muito “amiguinho” dos filhos, embora se deva ter diálogo. Precisamos manter a autoridade e muitas vezes, precisamos ser firmes.  

 

Deus castiga ? Sim, para corrigir. Isso já foi tratado aqui no blog, no post Deus Castiga ? , quem não leu ainda, tem agora uma nova oportunidade.

 

 

Rotina e Amor

01/05/2009

Um trabalho cansativo e inútil

Há uma cena encantadora, no final do Evangelho de São João (Jo 21,1 ss.), que hoje nos vai ajudar a meditar sobre a nossa vida, a pensar diante de Deus, concretamente, no sentido do nosso dia-a-dia, que tantas vezes nos parece monótono e cinzento.

Trata-se de uma cena de pesca, de um fato que aconteceu depois da ressurreição de Cristo, quando os Apóstolos, a pedido de nosso Senhor, já tinham subido de Jerusalém para a Galiléia. Lá, certo dia, se encontravam juntos cinco deles (Pedro, Tomé, Bartolomeu ou Natanael, Tiago e João e outros dois cujo nome não se menciona). Estavam novamente à beira do lago de Genesaré, palco que fora do seu trabalho profissional e também lugar de encontros inesquecíveis com Jesus.

Estava caindo a tarde. Pedro, então, disse aos outros: Vou pescar, e assim o fizeram: Partiram e entraram na barca. Naquela noite, porém, não pescaram nada.

Após uma noite de esforços inúteis – lançar a rede, recolhê-la vazia! -, estavam voltando para a praia em silêncio, como antigamente já lhes acontecera (cf. Lc 5, 5), e seus corações estavam tão cinzentos como a cor das nuvens do ante-amanhecer.

O coração inundado pela neblina cinza e triste de um trabalho inútil! Essa é a cor de muitos corações, quando sentem o peso da rotina dos dias: sempre o mesmo trabalho, sempre os mesmos lugares, sempre as mesmas caras, sempre o mesmo trânsito, sempre as mesmas reclamações da mulher, sempre os mesmos mutismos e alheamentos do marido, e os mesmos problemas dos filhos, e a mesma dor de coluna, e a mesma falta de dinheiro… E isso, um dia e outro dia, e um mês e outro mês, e um ano e outro ano… As pessoas sentem-se envolvidas por essa rotina como por um gás asfixiante, e pode chegar um momento muito perigoso, que é quando pensam: “Não agüento mais, isto não é vida”.

A solução será “mudar”?

Muitos acham, então, que a solução consiste em “mudar” (mudar de cidade, mudar de mulher ou de marido, mudar de trabalho, mudar de religião, mudar os hábitos certos e passar a ter vida desregrada). Ou então “desligam” de tudo e de todos, e passam a viver num mundo de sonhos, de fantasias (divagações de Internet e tv), de saudades…, que, por serem evasões, facilmente desembocam na pior fuga, na alienação completa do álcool e das drogas.

Santo Agostinho, o coração inquieto que não se conformava com as coisas confusas e medíocres, dizia: “Eu temia tanto como à morte ficar preso pelo hábito rotineiro” (Et tamquam mortem reformidabam restringi a fluxu consuetudinis). Mas não resolveu o problema fugindo, e sim arrependendo-se dos seus pecados e procurando Deus com toda a sua alma.

Todos deveríamos ter pavor tanto da rotina asfixiante como da falsa solução da fuga… Porque o problema da rotina -contrariamente ao que a maioria pensa – não está na repetição monótona das ações e das circunstâncias externas, mas na falta de renovação do nosso coração, do nosso modo de ver e amar as coisas e as pessoas. O mal está exclusivamente dentro de nós, gostemos ou não de reconhecer isso.

É muito sugestiva, a respeito disso, aquela história que conta Chesterton sobre o inglês que se sentia entediado de morar sempre na mesma ilha, e por isso foi à procura de outra terra, a terra dos seus sonhos. Viajou muito. Todos os países aonde aportava não o satisfaziam. Já se estava cansando de tanto viajar, quando avistou uma terra que o atraiu extraordinariamente. Aproximou-se dela, desembarcou, começou a internar-se no território e logo chegou, cheio de entusiasmo, à conclusão: “Esta é a terra dos meus sonhos, a que sempre andei procurando!” Ao perguntar a um dos habitantes onde estava, este respondeu-lhe: “Na Inglaterra”.

Algo de parecido acontece conosco. Não precisamos ir atrás de outras “ilhas”. Basta ficarmos na nossa – na nossa vida real – , mas vendo-a e vivendo-a com frescor de novidade. Isto é o que Jesus nos ensina. Voltemos, então, à nossa cena de pesca.

Jesus na luz do amanhecer

O Evangelho, após falar da pesca falha, continua a contar: Ao romper o dia, Jesus apresentou-se na margem, mas os discípulos não o reconheceram. Jesus disse-lhes então: “Rapazes, tendes alguma coisa que comer”. É tocante verificar que Jesus ressuscitado apresenta-se aos Apóstolos humano, afetuoso, familiar, não com uma majestade gloriosa e distante. Fala familiarmente: Rapazes! Pergunta se têm algo que se possa comer. Ele quer mostrar-nos que, depois da ressurreição (agora, portanto!), deseja viver junto de nós como um amigo muito próximo, compreensivo, humano, inseparável…

Mas, como acontece conosco, sucedeu que os discípulos, com uma grande miopia espiritual, não perceberam que Jesus estava lá, sempre junto deles, e continuaram soturnos e tristonhos. Dá para imaginar o tom de aborrecimento com que devem ter respondido, incomodados, a Jesus: -”Não! Não temos nada para comer”. E acho que nosso Senhor – rei e senhor de toda a alegria – divertiu-se, humana e “divinamente”, quando lhes disse: Lançai a rede ao lado direito da barca e encontrareis. Aconteceu o que já dá para imaginar: uma pesca milagrosa, abundantíssima. Lançaram a rede e, devido à grande quantidade de peixes, já não tinham forças para a arrastar. Jesus não faz as coisas pela metade…

Ao ver aquele milagre, João disse a Pedro: “É o Senhor!” João, o discípulo amado, foi o primeiro a ter sensibilidade para perceber que aquele desconhecido era Jesus, e avisou o “patrão” da barca, Pedro. E o bom Pedro, o Pedro emotivo e impulsivo que todos conhecemos, “deu uma de Pedro”: Simão Pedro, ao ouvir que era o Senhor, apertou o cinto da túnica, porque estava sem mais roupa, e lançou-se à água. Não pôde esperar que a barca chegasse à terra. Lançou-se de cabeça à água, ansioso por chegar a Jesus quanto antes! Pouco depois chegaram os outros na barca, arrastando a rede cheia.

E o que encontraram? Vamos prestar bem atenção. Vocês acham que encontraram um Jesus hierático, sentado numa cátedra de marfim, dizendo-lhes: “Vamos deixar-nos de coisas banais, materiais, agora que me reconheceram, e vamos falar do que importa: de coisas celestiais, de coisas elevadas, só das coisas espirituais, as únicas que contam”? Vocês acham que foi assim? É claro que não! Todos sabemos que foi bem diferente. Vejamos o que diz o Evangelho.

Ao saltarem em terra, viram umas brasas preparadas e um peixe em cima delas, e pão. Disse-lhes Jesus: “Trazei aqui alguns dos peixes que agora apanhastes… E depois : Vinde comer. E pronto! Lá ficaram sentados em roda, à volta da fogueirinha que o próprio Jesus acendera, sentindo o cheiro delicioso de peixe fresco assado – que Jesus já tinha começado a preparar, muito diligentemente, com as suas próprias mãos – , e repartindo pedaços de pão e comendo como uma alegre turma de amigos em piquenique de “feriadão”…

Jesus ama o “trivial cotidiano”

Jesus fez questão de valorizar, de mostrar como é importante o “trivial cotidiano”. Eu tenho um conhecido que até chorava de emoção ao pensar nesta cena: “Você – dizia – não percebeu como é maravilhoso? Cristo farofeiro! O Filho de Deus, farofeiro!”

Esse meu amigo se alegrava justamente ao perceber o carinho com que Cristo vê e valoriza a nossa vida diária, as pequenas coisas da vida, que às vezes nos parecem tão longe dos grandes ideais, e concretamente tão longe do ideal cristão de Amor e de santidade…E esquecemos que Jesus passou trinta anos vivendo com amor a “rotina dos dias”, no lar de Maria e José, tendo uma vida normal, discreta e simples, de família, de trabalho…, sendo, como se lê no Evangelho, o carpinteiro, o filho do carpinteiro… E aquilo era a “vida do Deus feito homem”, cheia, portanto, de grandeza divina, de santidade. Com ela estava nos redimindo, estava nos salvando.

Se refletirmos um pouco, perceberemos que esta cena de Cristo que pesca juntamente com os discípulos, e prepara o almoço, e toma a refeição com os amigos, e conversa com eles à beira do lago é um símbolo do que deveria ser cada um dos nossos dias. Também nós podemos acordar cada manhã (pensemos na manhã da segunda-feira mais cinzenta de todas), e – se nos tivermos lembrado de rezar e oferecer o nosso dia a Deus – , poderemos ver, com a luz da fé, que Jesus está junto de nós e nos diz: “Vamos começar o dia juntos, vamos trabalhar juntos, vamos tratar bem os outros, vamos fazer do “trivial cotidiano” uma aventura de Amor…”.

Seria tão bom que conseguíssemos ser cristãos que rezam, que se lembram com fé de Deus durante o dia inteiro! Bastaria, para isso, às vezes, trazer um crucifixo no bolso, ou um terço, e rezar as orações que amamos, também pela rua; e dizer muitas breves jaculatórias – do tipo “Jesus, eu te amo! Jesus, dá-me um coração como o teu!” – no trânsito, e ao iniciar uma tarefa, e ao morder os lábios para não xingar ou resmungar ou falar mal dos outros…. Se conseguíssemos conversar com Cristo até dos detalhes mais triviais, com certeza se acenderia uma luz nova no nosso coração e, com essa luz, veríamos de uma maneira “nova” todas as coisas que, com Ele, nunca ficam gastas, puídas, aborrecidas e rotineiras. Entenderíamos então por que Jesus nos diz: Eis que eu faço novas todas as coisas (Ap 21,5).

O “santo do cotidiano”

Há uma doutrina cristã maravilhosa, que São Josemaría Escrivá, como instrumento de Deus, proclamou com uma clareza e uma força tão grandes, que acendeu chamas de alegria e de amor em milhares de pessoas comuns – cristãos “vulgares” – em todo o mundo. A missão que Deus lhe confiou consistia em contribuir para que os cristãos comuns, que vivem no meio do mundo, compreendessem “que a sua vida, tal como é, pode vir a ser ocasião de encontro com Cristo: quer dizer, que é um caminho de santidade e de apostolado. Cristo está presente em qualquer tarefa humana honesta: a vida de um simples cristão – que talvez a alguns pareça vulgar e acanhada – pode e deve ser uma vida santa e santificante”.

E como conseguir viver esse ideal? São Josemaría mostrava o caminho: “Fazei tudo por amor -dizia -. Assim não há coisas pequenas: tudo é grande. – A perseverança nas pequenas coisas, por Amor, é heroísmo”. E aplicava esta doutrina – que é inspirada no Evangelho e em São Paulo (se não tiver amor, nada me aproveita…: 1 Cor,13,3) – a todas as coisas cotidianas boas e normais: podemos sorrir, por amor, quando não temos vontade mas os outros precisam de “caras sorridentes”; podemos acabar, por amor, um trabalho que gostaríamos de interromper por cansaço; podemos colocar a roupa no seu lugar, oferecendo esse sacrifício a Deus, em vez de jogá-la em cima da cama ou no chão; podemos rezar as orações que nos propusemos, ainda que nos custe concentrar-nos, porque não queremos furtar a Deus, com desculpas de cansaço (que não teríamos para um jogo de futebol ou para assistir à telenovela) esses momentos que são para Ele…

São Josemaria Escrivá, quando estava nesta terra, ajudava as pessoas – e também agora continua a ajudá-las lá do Céu- a converter, com a graça de Deus, todos os momentos e circunstâncias da vida em ocasião de amar e de servir, com alegria e com simplicidade, e iluminar assim os caminhos da terra com o resplendor da fé e do amor. Para os que se propõem seriamente viver assim, a rotina é impossível. O amor e o desejo de servir fazem ver tudo como uma oportunidade única, inédita, de dar (amar é dar) algo a Deus e aos nossos irmãos. Feito com carinho, tudo se faz “novo”…

Lembro-me agora de um episódio de faz muitos anos. Fui certa vez comprar figuras de presépio a um artesão – um artista de verdade -, e lhe pedi uma figura igual a outra que ele tinha lá numa prateleira do ateliê. Disse-me rotundamente que não. Perguntei: “Mas não conserva o molde?” Ao ouvir essas palavras, levantou-se indignado, como se eu o houvesse ofendido, e gritou: “Molde! …Molde!.. Eu não tenho molde. Cada figura é única e irrepetível”… Se cada dia nosso fosse assim, sem “molde” rotineiro, sem ser uma “peça em série” , que maravilha…!

Neste sentido é que Mons. Escrivá dizia: -”Não esqueçam nunca: há algo de santo, de divino, escondido nas situações mais comuns, algo que a cada um de nós compete descobrir… Deus espera-nos cada dia: no laboratório, na sala de operações de um hospital, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no seio do lar e em todo o imenso panorama do trabalho”. “A vocação cristã consiste em transformar em poesia heróica a prosa de cada dia”.

E, ao falar disso, insistia com especial ênfase na santificação do trabalho. Incutia nas almas o ideal de realizar o trabalho por amor a Deus e com o empenho de servir ao próximo: trabalho bem feito, acabado, caprichado nos detalhes, digno de ser colocado no altar do coração e oferecido juntamente com Jesus-Hóstia na Santa Missa. Toda a vida do cristão se converteria assim numa Missa. É a isso que todos nós deveríamos aspirar.

Já imaginou como tudo mudaria se, ao terminar cada um dos nossos dias e fazer a nossa oração da noite, pudéssemos dizer: – «Amanhã vou começar um outro dia, uma nova etapa da minha “vida diária”. Mas agora já não vou encará-lo aborrecido, suspirando e dizendo: “mais um”. Não! Ajudado por Deus, vou entrar nele com a luz que Jesus acendeu no meu coração, e direi, com alegria: “Hoje começa mais um dia, novinho em folha, por estrear. Hoje se me apresenta mais uma ocasião de amar e de servir. Vou me esforçar – rezando, mantendo o mais possível a presença de Deus – por conseguir que o meu amor introduza belas novidades, atitudes renovadoras, na minha rotina de todos os dias”.

(Adaptação de um capítulo do livro de F. Faus: Cristo, minha esperança)