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O Papel da Mulher na Evangelização da Família e da Sociedade

21/05/2009

DA PREGAÇÃO DE SÃO PAULO durante o tempo que passou em Atenas surgiu a primeira comunidade cristã daquela cidade: Alguns homens aderiram a ele e creram: entre eles, Dionísio o Areopagita, uma mulher chamada Dâmaris e, com eles, ainda outros. Foram a primeira semente plantada pelo Espírito Santo, da qual surgiriam depois muitos homens e mulheres fiéis a Cristo.

A mulher convertida é mencionada pelo nome: Dâmaris. É uma das numerosas mulheres que aparecem no livro do Atos dos Apóstolos, como manifestação clara de que a pregação do Evangelho era universal. Os Apóstolos seguiram em tudo o exemplo do Senhor, que, apesar dos preconceitos da época, anunciou a boa nova do Reino tanto aos homens como às mulheres. São Lucas também nos refere que a evangelização do continente se iniciou por uma mãe de família, Lídia, que logo a seguir iniciou a tarefa apostólica pela sua própria família, conseguindo que todos os da sua casa recebessem o batismo. Entre os samaritanos, quem primeiro recebeu a mensagem de Cristo foi uma mulher, e foi ela a primeira que a difundiu na sua cidade.

 O Evangelho mostra-nos como as mulheres seguiam e serviam o Senhor, como estiveram ao pé da Cruz e foram as primeiras a perceber que o sepulcro estava vazio. Não encontramos nelas o menor sinal de hipocrisia no trato com o Senhor, nem injúrias ou deserções.

 São Paulo teve uma profunda visão do papel que a mulher cristã viria a desempenhar como mãe, esposa e irmã na propagação do cristianismo. Podemos observá-lo pelo tratamento que lhes concede na sua pregação e nas suas cartas. Algumas delas são especialmente mencionadas com agradecimento, pela ajuda sacrificada que lhe prestaram na sua tarefa evangelizadora.

 Na nossa época, como em todas, a mulher desempenha um papel extraordinário no apostolado e na preservação da fé. “A mulher está destinada a levar à família, à sociedade civil, à Igreja, algo de característico, que lhe é próprio e que só ela pode dar: a sua delicada ternura, a sua generosidade incansável, o seu amor pelo concreto, a sua agudeza de engenho, a sua capacidade de intuição, a sua piedade profunda e simples, a sua tenacidade…”

 Se essas qualidades de que Deus dotou a personalidade da mulher forem desenvolvidas e atualizadas, “a sua vida e o seu trabalho serão realmente construtivos e fecundos, cheios de sentido, quer passe o dia dedicada ao marido e aos filhos, quer, tendo renunciado ao casamento por alguma razão nobre, se entregue plenamente a outras tarefas. Cada uma no seu próprio caminho, sendo fiel à sua vocação humana e divina, pode realizar e realiza de fato a plenitude da personalidade feminina. Não esqueçamos que Santa Maria, Mãe de Deus e Mãe dos homens, é não apenas modelo, mas também prova do valor transcendente que pode ser alcançado por uma vida aparentemente sem relevo”. Pedimos à Virgem pelos frutos deste trabalho da mulher na família, na sociedade, na Igreja, e que haja sempre entre elas abundantes vocações de entrega a Deus.

 

Fonte: Falar com Deus.

Exame sobre o Bom Exemplo – 1 (IV)

17/02/2009

Por Pe. Francisco Faus

A imagem do fermento

O Reino dos céus é comparável ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha e que faz fermentar toda a massa (Mat 13, 33).

Esta imagem é importante, sobretudo nos tempos atuais. Lembra-nos que o mundo é uma “massa” carente, quase inteiramente, da qualidade do bom pão das virtudes cristãs, da consistência e do sabor da verdade e do alimento da lei de Deus. Por isso, o exemplo dos cristãos responsáveis, neste ambiente atual, é decisivo. Para transformar a massa em pão de Deus, o fermento precisa ter uma força e uma eficácia capazes de levantá-la. Uma força que só Cristo pode dar.

Seria cegueira não nos darmos conta de que vivemos, de fato, numa sociedade cada vez mais massificada, em que o ambiente materializado e incrédulo que nos cerca despersonaliza as pessoas. Massifica-lhes a cabeça, os costumes, os gostos e os vícios, até quase anular a personalidade. Cria, em série, adolescentes e jovens consumistas e hedonistas. Basta abrir os olhos para perceber que a “cultura global de massa” robotiza a juventude. Se não houver educadores-fermento, cheios da vitalidade do ideal cristão, a inércia mecânica dos adolescentes que não pensam (talvez porque nunca viram nem aprenderam nada melhor por parte dos que deviam educá-los) os colocará na boca do lobo da “cultura-ambiente” materialista e pagã.

Sob a influência crescente da mídia, do markenting internacional, dos impérios jornalísticos, da propaganda dominada pela ditadura do lucro – interesses de empresas, de laboratórios, de companhias globais; império econômico do lazer; da indústria da droga e da pornografia… -, tudo se globaliza. E vai sendo também cada vez mais forte sobre a juventude e, em geral, sobre a massa, a influência, não menos ditatorial, das ideologias predominantes (sobretudo do laicismo anti-religioso, dos resíduos imuno-resistentes do marxismo, do hedonismo consumista e das diversas formas de esoterismo e de “mística” tipo New Age).

Nada mais fácil, nesse clima envolvente, que tornar-se massa. Nada mais fácil que aceitar, sem anti-corpos de idéias, de cultura e de espírito crítico, os valores (os contravalores) da maioria que segue a corrente. Nada mais fácil – é só deixar-se puxar pelo cabresto – que adotar os hábitos sociais comuns e mergulhar bem cedo, já na infância e na adolescência, nos vícios generalizados (álcool, drogas, obsessões “eletrônicas”, aberrações sexuais), enquanto leituras, programas de tv, “mestres”, etc, vão injetando na “veia” todos os preconceitos contra as atitudes cristãs fundamentais, os valores éticos básicos, as evidências da lei natural sobre a vida, a morte, o amor e a família, valores, infelizmente, nunca conhecidos com seriedade, nunca aprendidos e nunca aprofundados.

“A pós-modernidade – afirma o conhecido pedagogo Víctor García Hoz – é um grande vácuo. A profusão de idéias contraditórias, o relativismo predominante em muitas ideologias e o pragmatismo superficial da sociedade atual, dão razão ao ditado de que o mundo de hoje, especialmente a juventude, sabe o que não quer, mas não sabe o que quer [...]. Os valores que apoiavam a vida humana foram rejeitados e não foram substituídos por outros. O pensamento da pós-modernidade vacila entre a melancolia e o vazio”. v

Não feche os olhos! É em meio a essa massa desnorteada que se encontram os seus filhos, os seus alunos, os membros do seu rebanho de pastor. Muita boa gente, ao constatar isso, sofre, sofre muito. Mas, o que faz? O que fazemos? Lutamos, porventura, cada um de nós por ser o fermento de que essa massa manipulada precisa para ganhar qualidade humana e cristã? Os nossos critérios e comportamentos têm a potência do fermento, capaz de levedar a massa e transformá-la em bom pão?

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Pense que é Deus quem lhe dirige, silenciosamente, estas interrogações. O que lhe vai responder? Eis o nosso tema, agora, de meditação e exame de consciência.

Fonte: http://padrefaus.googlepages.com/

Exame sobre o Bom Exemplo – 1 (III)

15/02/2009

Por Pe. Francisco Faus

A imagem do sal

Vós sois o sal da terra. Se o sal perder o sabor, com que lhe será restituído o sabor? Para nada mais serve senão para ser lançado fora e calcado pelos homens (Mat 5, 13).

Os ouvintes de Cristo podiam entender bastante bem estas palavras, como também nós podemos, pois sabemos qual é a utilidade do sal. Resume-a com simplicidade este pensamento de São Josemaria Escrivá: “Sal da terra. – Nosso Senhor disse que os seus discípulos – tu e eu também – são sal da terra: para imunizar, para evitar a corrupção, para temperar o mundo. – Mas também acrescentou «quod si sal evanuerit…» – que se o sal perde o seu sabor, será lançado fora e pisado pelos homens…”.

Há pessoas que, tendo uma vida comum, igual à de muitos outros, dão a tudo o que dizem e fazem o toque de um “sabor” diferente. Os que com eles convivem e se relacionam captam, talvez de modo inconsciente, que tudo neles é atraente, porque está condimentado pela bondade, pelo amor, pela caridade, pela lealdade, pela serenidade, pela fé. Admiram-nas. Gostariam de ser como elas.

Era isso o que acontecia com os primeiros cristãos, como relata um antiqüíssimo escrito do século II, a Carta a Diogneto: “Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por língua ou costumes. Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam língua estranha, nem têm algum modo especial de viver [...]. Vivendo em cidades gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida singular e admirável [...]. Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põem a mesa em comum, mas não o leito; estão na carne, mas não vivem segundo as paixões da carne; moram na terra, mas têm a sua cidadania no céu; obedecem às leis estabelecidas, mas com sua conduta ultrapassam as leis; amam a todos, ainda que sejam perseguidos por todos [...]. Em poucas palavras, assim como a alma está no corpo, assim estão os cristãos no mundo” (nn. 5 e 6).

Fica patente nessa apologia que os primeiros cristãos eram, como Cristo desejava, o sal da terra. O seu “modo de vida singular e admirável”, o seu exemplo – fruto palpável de sua fé e do seu amor – atraía os corações mais nobres dentre os pagãos.

Mas não nos esqueçamos de que Cristo falou também do sal que perde o sabor, que se estraga. Não só deixa os alimentos insípidos, como pode vir a produzir náuseas. Talvez nos lembremos de umas palavras bastante fortes do Apocalipse, que Jesus dirige a uma comunidade em que começava a haver cristãos mornos, tíbios, dizendo-lhes – é duro! – que lhe produziam ânsia de vômito. Trata-se de um trecho da carta dirigida à igreja de Laodicéia, muitas vezes citada nas obras de espiritualidade: Conheço as tuas obras: não és nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, como és morno, nem frio nem quente, estou para te vomitar da minha boca. (Apoc 3, 15-16).

Nem frio nem quente. Na vida de um cristão morno tudo é insípido, tudo tem o mau sabor de sal corrompido. Assim acontece, infelizmente, com o amor decadente, desleixado e rotineiro dos esposos, dos pais, esse amor que, por não se renovar com detalhes de delicadeza, criatividade e abnegação, foi ficando encardido, esgarçado, e acabou tendo cheiro de mofo, por não dizer odor de cadáver.

São Josemaria Escrivá dizia: “Fujamos da rotina como do próprio demônio”, e qualificava a rotina de “abismo, sepulcro”, armazém de coisas mortas iv. A rotina não é só o túmulo do amor dos esposos. Também o trabalho feito sem amor, sem perfeição e capricho nos detalhes, sem espírito de serviço (pense no trabalho no lar), fica sendo como uma comida insossa e azedada… O “exemplo” de pais assim, espiritualmente mais “mortos” do que “vivos”, é natural que não atraia nem faça bem algum. Como seria triste, ou melhor, trágico, que houvesse filhos que pensassem. – “Eu não quero ser como os meus pais! Eles me fizeram desacreditar do casamento, do amor, da família, da vida”. Como seria amargo ter tido pais, mestres, pastores de almas, que foram incapazes de nos fazer sentir o gosto de Deus.

Fonte: http://padrefaus.googlepages.com/

Exame sobre o Bom Exemplo – 1 (II)

13/02/2009

Por Pe. Francisco Faus.

Eu sou luz ou sombra?

Tendo isso em mente, tentemos fazer o nosso exame de consciência, partindo de uma pergunta desafiadora. Eu sou luz ou sombra? Está disposto a enfrentá-la com coragem? Pois, então, veja, só para exemplificar, alguns flashes ilustrativos:

- Se eu sou uma pessoa sincera, constante, organizada, leal à palavra dada e fiel aos compromissos, sou luz. Os outros – filhos alunos, etc. – , junto de mim, vêem claro e sentem-se seguros.

- Mas se sou pessoa mentirosa, inconstante, desordenada e volúvel, sou sombra. Os que dependem de mim ficam confusos, inseguros, não conseguem avaliar o alcance das minhas palavras, das minhas atitudes, das minhas promessas; em suma, não podem contar comigo como um farol orientador nem como um apoio.

- Se eu sou pessoa com ideais nobres e definidos na vida, pessoa que tem valores positivos – ânsias de fazer o bem – , que vibra com eles, que procura praticá-los; se sou pessoa cheia de fé e de esperança e posso dizer, como Jesus, eu sei de onde venho e para onde vou, então eu sou luz, mais ainda, sou reflexo da Luz com maiúscula, sou sinalização divina, foco cristão que orientará outras vidas.

- Mas se sou pessoa cética, agnóstica, cheia de incertezas e de pessimismo, convencida de que neste mundo nada há de bom, tudo é interesseiro, os valores são imaginários e os ideais tolices; se me julgo realista porque capitulo perante os interesses egoístas da terra e sou incapaz de ver, além deles, outra finalidade para a vida, então sou uma sombra mais daninha que uma cascavel oculta no armário, e as primeiras vítimas podem ser os que mais amo.

- Se eu sou um lutador que detesta o conformismo e a acomodação, um coração que sempre quer puxar a vida para patamares mais elevados e perfeitos – para aspirações nobres, para virtudes, para maiores quilates de amor e amizade – ; se eu detesto a mediocridade, se vibro com ânsias de justiça, se arquiteto sonhos realistas para tornar o mundo mais fraterno e belo e os demais mais felizes, então, com certeza, sou luz.

- Se, porém, cochilo na rede da canseira moral e do desencanto; se resmungo mais do que animo, se tenho alma, coração, atitudes, palavras e gestos desbotados pela frustração; se faço troça dos sonhadores sacrificados, se tenho pena dos que “ainda” acreditam no amor, na verdade, na justiça e no bem, então eu sou, com certeza, uma treva miserável..

- Se eu vejo, antes de mais nada, o lado positivo das coisas; se os meus comentários, em casa e fora de casa, sem serem ingênuos, são sempre estimulantes; se sou conhecido como aquela pessoa que sempre acolhe, que sempre está disposta a ajudar, que sempre anima, que sempre sorri, que alegra qualquer ambiente, então eu sou uma luz que concentra as sete cores da alegria..

- Mas se pertenço ao rol daqueles que, mal aparecem em casa, ou se sentam à mesa, ou entram na sala de aula, iniciam uma nova era glacial, apagam o sorriso dos outros (“fechou o tempo” – dizem deles); se a minha característica é a irritação, a impaciência e o mau humor; se reclamo de tudo e de todos; se acho tudo ruim; se não agradeço nada; se tenho pena de mim mesmo e ando com complexo de vítima, então, meu amigo, então eu sou uma sombra pior que as que Dante pinta no Inferno.

Guardemos essas amostras e passemos para outra imagem muito clara de Cristo.

Fonte: http://padrefaus.googlepages.com/

Exame sobre o Bom Exemplo – 1 (I)

11/02/2009

Por Pe. Francisco Faus.

As obras acima das palavras.

Para iniciarmos esta nossa primeira meditação sobre o dever de dar bom exemplo, vamos escutar atentamente umas palavras muito claras de Cristo no Sermão da Montanha: Vós sois a luz do mundo [...]. Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus (Mt 5, 14.16).

A luz entra pelos olhos. O que os olhos enxergam em plena claridade fala por si, não precisa de palavras nem, muito menos, de “palavreado” para se explicar. Assim é o bom exemplo, e assim o apreciaram sempre os grandes homens, sobretudo os santos. Já Santo Inácio de Antioquia, o bispo mártir do século II, enquanto era conduzido a Roma para sofrer martírio, escrevia aos Efésios: “É melhor calar-se e ser do que falar e não ser. É maravilhoso ensinar, quando se faz o que se diz [...]. Aquele que compreende verdadeiramente a palavra de Jesus pode entender o seu silêncio [ou seja, o que "dizem", sem palavras, os seus exemplos]; e então será perfeito, porque atuará de acordo com a sua palavra, e se manifestará também mediante o seu silêncio [ou seja, mediante o que "faz" sem falar]“.

O doce Santo Antônio de Pádua adotava um tom santamente irado quando falava do exemplo: “É viva a palavra quando são as ações que falam. Cessem, peço, os discursos, falem as obras. Estamos saturados de palavras, mas vazios de obras” i. Hoje, a pedagogia científica insiste cada vez mais no valor insubstituível da chamada educação invisível ii; da força exemplar das convicções e das atitudes que as encarnam.

A imagem da luz é simples. A boa luz permite enxergar bem, sem confusões; mostra perigos que a sombra ocultaria; ilumina referenciais da paisagem e dos caminhos que a noite encobriria; a luz também aquece, estimula a vitalidade e favorece a alegria. Poderíamos dizer que os que irradiam a claridade do bom exemplo têm todas essas características da luz.

Fonte: http://padrefaus.googlepages.com/

Diálogo Ecumênico (III)

26/01/2009

SÃO PAULO RECORDAVA aos primeiros cristãos de Éfeso que deviam proclamar a verdade com caridade: veritatem facientes in caritate, e é isso o que nós devemos fazer: com aqueles que já estão perto da plena comunhão na fé e com os que possuem apenas um vago sentimento religioso.

Sem ceder na doutrina, devemos ser compreensivos, cordiais. E mais do que isso: se por qualquer circunstância nos encontramos num ambiente ou devemos estar com alguém que nos trata com frieza, seguiremos o sábio conselho de São João da Cruz: “Não pense em outra coisa – exortava o Santo a uma pessoa que lhe pedia luz no meio das suas tribulações e dificuldades – senão que Deus ordena todas as coisas; e onde não há amor, ponha amor e tirará amor”. Nas pequenas e grandes circunstâncias da vida, teremos abundantes ocasiões de pôr este conselho em prática. E veremos muitas vezes como, quase sem o percebermos, nos foi possível mudar esse ambiente hostil ou indiferente.

A verdade deve ser apresentada integralmente, sem falsas composições, mas de maneira amável; nunca pode ser uma verdade azeda ou implicante, nem imposta à força ou com violência. Todas as pessoas têm o direito de ser tratadas com respeito, de que se aprecie o que sempre há de positivo nas suas idéias ou na sua conduta, por mais que estejam erradas ou que lhes façamos uma crítica legítima. Não devemos julgar ninguém, e muito menos condenar. A mesma caridade que nos anima a manter-nos firmes na fé é a que nos leva a querer bem às pessoas, a compreender, a desculpar, a deixar agir a graça de Deus, que não força nem tira a liberdade das almas.

A compreensão leva-nos a querer saciar a maior necessidade que o coração humano experimenta: a ânsia de verdade e de felicidade, que Deus imprimiu em cada criatura. As circunstâncias em que cada qual se encontra são diferentes, como também o grau de verdade que se alcançou; e para que todos cheguem à plenitude da fé, o nosso afeto e a nossa amizade podem ser a ponte de que Deus muitas vezes se serve para penetrar mais profundamente nessas almas.

Nossa Senhora, se lhe pedirmos que nos ajude, há de ensinar-nos a tratar a cada um como convém: com infinito carinho e respeito pela pessoa, e ao mesmo tempo com imenso amor pela verdade, com um amor que não nos levará, por falsa compreensão, a ceder na doutrina.

Fonte: Falar com Deus

Diálogo Ecumênico (II)

24/01/2009

A BOA NOVA que a Igreja proclama é precisamente fonte da salvação porque é a mesma verdade pregada por Cristo. “Consciente disso, Paulo quer confrontar a doutrina que anuncia com a dos outros Apóstolos, para estar certo da autenticidade da sua pregação (Gal 2, 10); e durante toda a sua vida, nunca deixou de recomendar a fidelidade aos ensinamentos recebidos, porque ninguém pode estabelecer outro fundamento senão aquele que já foi estabelecido, que é Jesus Cristo (1 Cor 3, 11)”.

A verdade que recebemos do Senhor é una, imutável, integramente conservada nos começos e através dos séculos, e nunca será lícito relativizá-la e aceitar dela somente aquilo que pareça conveniente, pois “qualquer atentado à unidade da fé é um atentado contra o próprio Cristo”. São Paulo está tão profundamente convencido desta verdade que não cessa de censurar nas suas Epístolas as pequenas facções que iam aparecendo naquela primeira época. Trago-vos à memória, irmãos, o Evangelho que vos tenho pregado, que recebestes, no qual vos mantendes firmes e pelo qual sois salvos [...]. Pois transmiti-vos em primeiro lugar aquilo que eu mesmo recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; e que apareceu a Cefas e depois aos doze. Posteriormente, apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais muitos ainda vivem e alguns morreram.

O Apóstolo anuncia a esses primeiros cristãos que a doutrina que devem crer não é uma teoria sua, pessoal, nem de nenhum outro, mas a doutrina comum dos Doze, daqueles que foram testemunhas da vida, morte e ressurreição de Cristo, de quem por sua vez a receberam. O conteúdo da fé – nos primeiros tempos e hoje – encontra-se resumido no Credo, que tem a sua origem nos ensinamentos de Jesus, transmitidos pelos Apóstolos com a assistência constante do Espírito Santo. Este conteúdo não é uma teoria abstrata acerca de Deus, mas a verdade salvadora revelada pelo Senhor, que tem umas conseqüências práticas e reais no nosso modo de ser, de pensar, de trabalhar, de agir… Por não resultar de um convênio humano nem ser uma doutrina inventada pelos homens, “é absolutamente necessário expor com clareza toda a doutrina. Nada é tão alheio ao ecumenismo – ensina o Concílio Vaticano II – como aquele falso irenismo que desvirtua a pureza da doutrina católica e obscurece o seu sentido genuíno”.

O verdadeiro objetivo do diálogo ecumênico, bem como de todo o diálogo apostólico, reside, pois, em procurar a comunhão mais perfeita com a verdade salvadora de Cristo. O progresso no conhecimento e na aceitação dessa verdade necessita da contínua assistência do Espírito Santo, a quem pedimos luz nestes dias, e de estudo e reflexão para podermos entender e explicar cada vez de modo mais claro tudo aquilo que Jesus Cristo nos revelou, e que se encontra guardado como um tesouro no seio da Igreja Católica. Só então é que podemos compreender – diz Paulo VI – por que a Igreja, “ontem e hoje, dá tanta importância à rigorosa conservação da autêntica revelação, por que a considera um tesouro inviolável e tem uma consciência tão severa do seu dever fundamental de defender e transmitir em termos inequívocos a doutrina da fé. A ortodoxia é a sua primeira preocupação; o magistério pastoral, a sua função primária e providencial [...]; e o lema do Apóstolo Paulo: Depositum custodi (1 Tim 6, 20; 2 Tim 1, 14), constitui para ela um compromisso tal, que seria uma traição violá-lo.

“A Igreja, mestra, não inventa a sua doutrina; ela é testemunha, guardiã, intérprete, meio; e naquilo que se refere às verdades próprias da mensagem cristã, pode-se dizer que é conservadora, intransigente; e a quem lhe pede que torne a sua fé mais fácil, mais de acordo com os gostos da cambiante mentalidade dos tempos, responde-lhe com os Apóstolos: Non possumus, não podemos (At 4, 20)”. Este ensinamento também deve servir de critério na ação apostólica com aqueles católicos que quereriam adaptar a doutrina, às vezes severa, a uma situação particular em que está ausente o espírito de sacrifício e que, portanto, é incompatível com o seguimento do Senhor.

Fonte: Falar com Deus

Oração e Apostolado

16/01/2009

CERTO DIA, JESUS, depois de ter passado a tarde anterior curando doentes, pregando e atendendo as pessoas que vinham ter com Ele, muito antes do amanhecer, saiu da casa de Simão, foi a um lugar deserto e ali orava. Simão e os que estavam com ele saíram em sua busca e, achando-o, disseram-lhe: Todos estão à tua procura. É São Marcos quem o relata no Evangelho da Missa (Mc 1, 29-39).

Todos estão à tua procura. Também nos nossos dias as multidões têm “fome” de Deus. Continuam a ser atuais as palavras de Santo Agostinho no início das suas Confissões: “Criaste-nos, Senhor, para Ti e o nosso coração está inquieto enquanto não descansar em Ti”

O coração da pessoa humana foi feito para procurar e amar a Deus. E o Senhor facilita esse encontro, pois Ele também procura cada pessoa através de inúmeras graças, de atenções cheias de delicadeza e de amor. Quando vemos alguém ao nosso lado, quando a imprensa, o rádio ou a televisão falam de alguém, podemos pensar, sem receio de nos enganarmos: Cristo chama essa pessoa, preparou para ela graças eficazes. “Repara bem: há muitos homens e mulheres no mundo, e nem a um só deles deixa o Mestre de chamar. – Chama-os a uma vida cristã, a uma vida de santidade, a uma vida de eleição, a uma vida eterna”. É nisto que se baseia a nossa esperança apostólica: Cristo, de uma maneira ou de outra, está à procura de todos. A missão de que Deus nos encarrega é a de facilitarmos esses encontros com a graça.

A propósito da passagem do Evangelho que comentamos, escreve Santo Agostinho: “O gênero humano está enfermo, afetado não por uma doença corporal, mas pelos seus pecados. Está acamado em todo o orbe terrestre, do Oriente ao Ocidente, como um grande doente. Para curar este moribundo, o Médico onipotente desceu à terra. Humilhou-se até o extremo de tomar carne mortal, ou seja, até se aproximar do leito do enfermo”.

(…)

Mantenhamos com firmeza a esperança na eficácia da nossa ação apostólica, por mais difícil que seja o ambiente em que nos movemos. Os caminhos da graça são imperscrutáveis, mas Deus quis contar conosco para salvar as almas. Que pena se, por omissão da nossa parte, muitos homens continuassem a viver longe de Deus! Devemos sentir a responsabilidade pessoal de que nenhum amigo, colega ou vizinho possa queixar-se a Deus: Hominem non habeo: Senhor, não encontrei quem me falasse de Vós, ninguém me ensinou o caminho.

“O cristianismo possui o grande dom de enxugar e curar a única ferida profunda da natureza humana, e isso vale mais para o seu êxito do que toda uma enciclopédia de conhecimentos científicos e toda uma biblioteca de controvérsias; por isso o cristianismo há de durar enquanto durar a natureza humana”, diz o Cardeal Newman.

(…)

O SENHOR QUER que sejamos seus instrumentos para tornar presente a sua obra redentora no meio das tarefas seculares, na vida normal. Mas como poderemos ser bons instrumentos de Deus se não cuidamos com esmero da vida de piedade, se não mantemos um trato verdadeiramente pessoal com Cristo na oração? Por acaso pode um cego guiar outro cego? Não cairão ambos no abismo?

O apostolado é fruto do amor a Cristo. Ele é a luz com que iluminamos, a Verdade que devemos ensinar, a Vida que comunicamos. E isto só será possível se formos homens e mulheres unidos a Deus pela oração. Comove contemplar como o Senhor, no meio de tanta atividade apostólica, se levantava de madrugada, muito antes do amanhecer, para dialogar com seu Pai-Deus e confiar-lhe o novo dia que começava.

Devemos imitá-lo, pois é na oração, no trato de intimidade com Jesus, que aprendemos a prestar atenção, a compreender e a valorizar as pessoas que Deus põe no nosso caminho. Sem oração, o cristão seria como uma planta sem raízes; acabaria por secar, e não teria assim a menor possibilidade de dar fruto.

Podemos e devemos dirigir-nos ao Senhor muitas vezes ao longo do dia. Ele não está longe; está perto, ao nosso lado, e ouve-nos sempre, especialmente nesses momentos em que, tal como agora, nos dedicamos expressamente a falar-lhe sem anonimato, cara a cara. À medida que nos abrirmos às chamadas divinas, o nosso dia será divinamente eficaz. Na realidade, a nossa vida de apóstolos vale o que valer a nossa oração.

A oração nunca deixa de dar os seus frutos. Dela tiraremos a coragem necessária para enfrentar as dificuldades com a dignidade dos filhos de Deus, bem como para perseverar no convívio com os amigos que desejamos levar a Deus. Por isso a nossa amizade com Cristo há de ser cada dia mais profunda e sincera. Por isso devemos esforçar-nos seriamente por evitar todo o pecado deliberado, guardar o coração para Deus, procurar afastar os pensamentos inúteis – que freqüentemente dão lugar a faltas e pecados -, purificar muitas vezes a intenção, depondo aos pés do Senhor o nosso ser e as nossas obras… E jamais abandonar estes minutos diários de diálogo interior com Deus, ainda que estejamos cansados e não possamos concentrar-nos inteiramente, ainda que não experimentemos nenhum afeto, ainda que nos assaltem involuntariamente muitas distrações. A oração é o suporte de toda a nossa vida e a condição de todo o apostolado.

Ao terminarmos este tempo de oração, recorremos à intercessão poderosa de São José, mestre de vida interior. Pedimos àquele que viveu tantos anos junto de Jesus, que nos ensine a dirigir-nos a Ele com confiança durante todos os dias da nossa vida, sobretudo naqueles em que o trabalho aperta mais e nos parece difícil poder dedicar-lhe este tempo costumeiro de oração, condição imprescindível para a eficácia do nosso apostolado pessoal. A nossa Mãe Santa Maria intercederá por nós, junto com o santo Patriarca.

Fonte: Falar com Deus.